12.19.2009

Limites do poeta platônico...

O poeta honesto se coloca diante do Belo e diz:
- Não farei poesia, não farei música, nem blasfemarei desejando, pois,
me calo, fecho os olhos e penso: " Sou limitado pela minha humanidade". Me perdoi.

O caso é, que bom que não existem poetas honestos.
Mintam poetas, mintam músicos, mintam verdades, mintam mentiras...
pintadas, escritas, ditas e malditas! Encantem com a audácia de um Ulisses que diz
para Poseidon: "- Navego por onde quero!"

E Poseidon escuta e se vinga deixando-o preso a um barrote na infinitude azul.
Mas o humano é a audácia, é a petulância. Poeta... o que fazer com o nada?

Preencha, preencha e inunde a alma até o espírito se afogar na imensidão de Poseidon,
até as margens fazerem sentido, quando os pés cansados tocarem-nas.


Thiago Fonseca

11.13.2009

Um balão vermelho que sobe...

Não há força maior no universo do que aquela fruto do empenho coletivo do homem. E se tal empenho é representado pela união do amor e do desejo comum entre amigos de realizar uma obra de arte, então o resultado não pode ser diferente da fantástica expressão humana de um grande sentimento. Mas, um grande sentimento que expressa muito mais uma miscelânea, um conjunto de visões artísticas diferentes condensadas em um desejo de realização, do que apenas um todo homogêneo. A obra de arte: Indústria da Felicidade Humana da banda Elipê transborda de humanidade na medida em que, em 12 canções, canta a vida, não como um conjunto de clichês sentimentais, mas através do desejo de emocionar com sinceridade através do relato dos sentimentos de tantas vidas que falam através de cada música. Além disso, uma grande música não é aquela que apenas expressa um conteúdo técnico-musical, mas sim, aquela que faz “lados” da nossa humanidade falar através dela, tocando-nos, ofendendo-nos, provocando-nos, acalentando-nos, apaixonando-nos, etc. Se agora a Elipê canta a Indústria da Felicidade Humana, é porque algo persiste de humano em nós, algo que insiste em se manifestar em um mundo amargo e de tantos predicados negativos..., é o cantar a vida, é a celebração da amizade que eles cantam, são as consequências de escolhas difíceis que eles cantam. Arrisco-me a dizer que é mais até do que a “felicidade humana” que é cantada em Indústria da Felicidade Humana. A Elipê agora canta a “condição humana” e espero que, dentro do mundo da rapidez, do excesso, da futilidade, mas também da vontade, da esperança e do desejo de humanidade as pessoas parem, ao menos um minuto, para ver o balão vermelho subir... e que suba alto, tão alto que a vista não alcance e o sentimento de ter contemplado permaneça no canto mais sincero de nossos corações.


Thiago Fonseca


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10.28.2009

Discurso como orador da turma formanda em Pedagogia 2005.1

A tarefa de um educador, em certa medida, revela uma pretensão que pode ser um tanto desconfortável. Pois, que pretensão pode ser maior do que aquela que estabelece alguém como detentor da tarefa de guiar os homens para um estado de humanidade melhor? Que a tarefa de um educador se mostre difícil, pretensiosa ou, como afirmou Kant em sua obra Sobre a Pedagogia: “a mais difícil das tarefas humanas”, disso não se segue que a empresa pedagógica seja impossível. A possibilidade da educação encontra-se diretamente vinculada ao exercício crítico das condições de possibilidade da empresa pedagógica. Pois, de outro modo, ela não passaria de uma técnica medíocre estéril. Então, quais valores devemos defender ou ensinar? Os valores da minha crença privada, baseada em minhas experiências apenas, ou aqueles que elevando a minha consciência através da razão eu reconheço, como, por exemplo, a humanidade e a ideia de homem como um bem em si mesmo. Quais conteúdos devo priorizar, aqueles que adestrarão apenas, o meu aluno, ou aqueles que, além de formá-lo, possibilitarão que sua razão manifeste a plenitude daquilo que o identifica como ser humano? Aqui não faço apelo à educação do “senso comum” que, ao abrir as portas da sala de aula para qualquer espécie de conteúdo confunde o respeito às particularidades de certas classes sociais e movimentos sociais com a “pedagogia do achismo”. Que sucateiem nossas escolas e que vendam nossas universidades, mas que não transformem os educadores em apenas reprodutores daquilo que o “politicamente correto” ou o conservadorismo de direita ou de esquerda reza. Que respeitem o conhecimento baseado em visões de classe ou minorias, mas que não submetam a ciência, a episteme, à opinião, a doxa. Desse modo, o educador tem que estar livre de correntes que o prendam em solos que com o tempo cobrem, como pagamento, a limitação de sua visão de mundo. Mas, falando assim, parece que o educador tem que ser um “super-humano”, livre de se inclinar às tentações do mundo, dos valores que lhe parecem mais dignos de serem defendidos. Mas, os homens não são “super-humanos” e, agir assim seria negar aquilo que os identifica como tais, isto é, a condição humana. Nessa medida, uma vez que o problema de educar é precedido por um problema ainda maior que é: o que devemos ser ou o que podemos ser? Parece-me, honestamente, que conseguimos identificar o que torna a empresa pedagógica tão difícil. O educador não deve se furtar o dever de criticar sua prática cotidianamente, de se colocar como em um tribunal se perguntando “kantianamente” o que posso saber? O que devo fazer? E, o que posso esperar? Ele é um mestre sim! Que sabe algo e que deve ter a consciência do seu poder de apresentar conhecimentos. Ele não é pastor, pois esses lidam bem com ovelhas, mas essas, coitadas, não podem mudar nada durante a sua existência. O educador deve ter a consciência do mundo, mas não deve, como Atlas, ser obrigado a carregá-lo, deve compreendê-lo, acolhê-lo, modificá-lo dentro de suas possibilidades, acima de tudo, deve pensá-lo. E aqui encerro a minha fala tomando a liberdade de trazer Fernando Pessoa em O Guardador de Rebanhos para ilustrar a doce dor do pensar:

Pensar incomoda, como andar a chuva...

Quando o vento cresce...

E parece que chove mais...

Thiago Fonseca

9.23.2009

O Homem do Cigarro

Ele colocou o primeiro cigarro da carteira nos lábios. O pouco de saliva no lábio inferior fez o cigarro grudar na boca como se fosse fita adesiva. Ali parado o cigarro ficou por um tempo apagado, até que as mãos que guardavam a carteira retornavam para a boca trazendo a chama de mais um isqueiro vagabundo. Acende e eis o início do dia. Um, dois, três cigarros. Anda, anda, anda. Da voltas e voltas. Para, para, para. O excesso de nicotina no corpo incorpora as vestes, os pêlos, o cheiro cutâneo que todo ser, até mesmo o mais desprezível deles, possui. Sua cabeça pesa tanto que pende em direção ao chão durante toda a sua estadia no pátio da fumaça. A bermuda jeans surrada, quase branca, alcança o joelho. A blusa branca, com aparência de confortável e velha parece pender num cabide de osso e carne. A mulher, um exemplar extraordinariamente curioso, se apresenta como elemento absolutamente antagônico em relação ao “homem do cigarro”. Ela é tão visivelmente “a parte” que o “homem do cigarro”, quando a vê, não se surpreende com a distância nem com o excesso de diferença. A mulher é “a parte” e o “homem do cigarro” possui sua “parte” na história. A barba do “homem do cigarro” possui característica peculiar. Meio sem fazer, mal feita, cinza e branca. A sua dentição também exibe um amarelado mais visível em alguns dentes próximos aos caninos, tártaro, talvez. Um, dois, três cigarros. Anda, anda, anda. Da voltas e voltas. Para, para, para. O “homem do cigarro” é comentarista, da palpites sobre administração, sobre música, sobre o calor da cidade, sobre todas as coisas que as pessoas insistem em falar no elevador. E no final das contas ele até tem um fragmento de razão, mesmo que seja no pior dos mundos possíveis. O “homem do cigarro” fumava onde queria ou fuma onde quer, não sei ao certo. Ele parece estar ansioso por algo. Um anseio acalentado por cada “calorzinho” sentido na mucosa da garganta quando inala fumaça preta. Cinza, para ser eufêmico. Que personagem curioso... “homem do cigarro”, ânsia de quê!? Que a vida fosse diferente; que sua mulher lhe cumprimentasse toda manhã, mesmo que como um ritual cego; que as pessoas dessem ouvidos aos seus comentários e você deixasse de ser um coadjuvante dos momentos insignificantes das pessoas; o que faria com um pouco de atenção? A porta do elevador bate. O “homem do cigarro” sobe para sua casa. Logo, o “homem do cigarro” está de volta, dando voltas, no mundo que, dando voltas, vira-mundo.


Thiago Fonseca


Apenas um personagem e minhas impressões, dos milhares de personagens que vejo cotidianamente...

8.10.2009

A Torre de Kaspar Hauser

[Kaspar Hauser]- Isto é muito alto...

[Kaspar Hauser]- Só um homem muito grande poderia ter construído isso.

[Kaspar Hauser]- Eu gostaria muito de conhecê-lo

[Old Man]- Não, Kaspar. Não é preciso ser tão grande para construí-la, pois existem andaimes.


Filme: The Enigma of Kaspar Hauser

Diretor: Werner Herzog


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Ah... as vezes a inocência soa como alívio!

Como se retornássemos para um estado de coisas de leveza invejável...

No qual a ignorância soa como grandeza...

E a face encosta no travesseiro levemente...

Mas tudo isso é ilusão...



Thiago Fonseca

6.09.2009

Aos gentis amigos!!!

Antes de tudo: MUITO OBRIGADO SEMPRE. Eu escrevo para todos aqueles que possuem interesse em ler o que penso sobre o mundo, mas, principalmente, para todos os meus amigos que acompanham esse blog diariamente. Para mim, isso é uma honra de total grandeza e somente aqueles que conhecem a minha amizade e amor para com os meus amigos sabem o quanto valorizo os comentários e PRINCIPALMENTE, o fato deles lerem e pensarem comigo algumas coisas! Amo vocês e bola pra frente!


Thiago Fonseca

6.03.2009

Ler é descascar

Depois de um post meio esquisito como o último, irei me ater a algo muito agradável desta vez.

Certa feita, meu orientador comentou com nós, alunos de sua matéria História da Filosofia Moderna II, na UFBA, que um texto de filosofia é como uma cebola. Ele possui camadas, rugosidades, sabor, uns mais fortes outros completamente amargos, mas todos, sem dúvida, carregam em seu bojo a riqueza argumentativa que todo grande texto de filosofia tem. Eu, certamente, estou inclinado a pensar que tal comparação pode ser feita com toda e qualquer manifestãção humana, seja ela literária ou gráfica ou musical, enfim, seja ela criação significativa fundada em bases racionais, em estruturas argumentativas ou em expressões meramente psicológicas de predileções subjetivas. Um leitor apressado, impaciente, percorre o que está lendo apenas decodificando sinais linguísticos com velocidade tal que, na maioria das vezes, se perde a "nervura", como diria Marilena Chauí, a tecitura que o texto possui e que é a fonte da riqueza do mesmo. Se nos propomos o desafio de saborear o que se lê, enquanto manifestação artística, devemos estar preparados para um olhar mais do que decodificador, isto é, um olhar depurador, que separa "grosserias" do texto, impurezas, que acolhe com inteligência o que está sendo apresentado. Aliás, a palavra inteligência vem do Latim e significa "ler dentro". Então, ler com inteligência é "ler dentro" da alma de quem produz a manifestação de um significado. Assim como um leitor apressado, um ouvinte apressado que escuta uma canção de maneira descompromissada dificilmente sentirá a força significativa que uma canção carrega. Isto se pensarmos uma música como uma riqueza sonora quase que impossível de se estabelecer limites para sua totalidade semântica. Assim, um ouvinte apressado exercita seu senso comum a partir de meras comparações do tipo: "Ah, isso se parece com tal outra banda!" ou "Ah, isso é tal estilo de música". De fato, a capacidade de "descascar cebolas" só se ganha com o tempo. E o pior de tudo, a estrutura da vida contemporânea não nos favorece em nenhuma instância a possibilidade de uma relação inteligente para com qualquer produção humana. O descarregar excessivo de informações sobre nossas mentes diariamente, relega-nos a um estado no qual lemos muito pouco o mundo. Não lemos, consumimos, o que é de uma diferença absurda. O consumo é desgaste; é uso desenfreado ou pragmático de algo, enquanto ler é "ler dentro", saborear o que está sendo construido percorrendo os experimentos de pensamento que o autor cristaliza na obra. Por isso, considero que toda leitura supercial é irresponsável, uma falta de compromisso para com a dimensão do belo e do sublime de uma manifestação artística. "Ler dentro" não é um mero devaneio ou deleite intelectual reservado para poucos, não mesmo. "Ler dentro" é ouvir o outro, é desenvolver a faculdade de ouvir, de receber informações, para aprendermos finalmente a depurar o que nos é dado. Se o mundo está dado, entendendo o mesmo como uma infinidade de representações de qualidades também infinitas, cabe a nós desenvolver o hábito de depurar aquilo que nos é dado. Somos responsáveis pelo que lemos, ouvimos, fazemos e todos os demais verbos, e apenas a preguiça pode nos levar à prisão da incompetência, do senso comum, da cultura de massa e da cultura dita erudita. Como diria Kant, somos responsáveis pela nossa mediocridade e é muito mais fácil delegar a alguém a tarefa de nos entregar tudo pronto. Portanto, o exercício de "descascar cebolas" é, também, um compromisso moral para com o desenvolvimento de nossas faculdades, na medida em que supõe um leitor em processo de esclarecimento e de atualização de todas as suas potencialidades como compromisso para com o outro e para si mesmo.

Sapere aude! (Latim: ouse saber!)


Thiago Fonseca