Depois de um post meio esquisito como o último, irei me ater a algo muito agradável desta vez.
Certa feita, meu orientador comentou com nós, alunos de sua matéria História da Filosofia Moderna II, na UFBA, que um texto de filosofia é como uma cebola. Ele possui camadas, rugosidades, sabor, uns mais fortes outros completamente amargos, mas todos, sem dúvida, carregam em seu bojo a riqueza argumentativa que todo grande texto de filosofia tem. Eu, certamente, estou inclinado a pensar que tal comparação pode ser feita com toda e qualquer manifestãção humana, seja ela literária ou gráfica ou musical, enfim, seja ela criação significativa fundada em bases racionais, em estruturas argumentativas ou em expressões meramente psicológicas de predileções subjetivas. Um leitor apressado, impaciente, percorre o que está lendo apenas decodificando sinais linguísticos com velocidade tal que, na maioria das vezes, se perde a "nervura", como diria Marilena Chauí, a tecitura que o texto possui e que é a fonte da riqueza do mesmo. Se nos propomos o desafio de saborear o que se lê, enquanto manifestação artística, devemos estar preparados para um olhar mais do que decodificador, isto é, um olhar depurador, que separa "grosserias" do texto, impurezas, que acolhe com inteligência o que está sendo apresentado. Aliás, a palavra inteligência vem do Latim e significa "ler dentro". Então, ler com inteligência é "ler dentro" da alma de quem produz a manifestação de um significado. Assim como um leitor apressado, um ouvinte apressado que escuta uma canção de maneira descompromissada dificilmente sentirá a força significativa que uma canção carrega. Isto se pensarmos uma música como uma riqueza sonora quase que impossível de se estabelecer limites para sua totalidade semântica. Assim, um ouvinte apressado exercita seu senso comum a partir de meras comparações do tipo: "Ah, isso se parece com tal outra banda!" ou "Ah, isso é tal estilo de música". De fato, a capacidade de "descascar cebolas" só se ganha com o tempo. E o pior de tudo, a estrutura da vida contemporânea não nos favorece em nenhuma instância a possibilidade de uma relação inteligente para com qualquer produção humana. O descarregar excessivo de informações sobre nossas mentes diariamente, relega-nos a um estado no qual lemos muito pouco o mundo. Não lemos, consumimos, o que é de uma diferença absurda. O consumo é desgaste; é uso desenfreado ou pragmático de algo, enquanto ler é "ler dentro", saborear o que está sendo construido percorrendo os experimentos de pensamento que o autor cristaliza na obra. Por isso, considero que toda leitura supercial é irresponsável, uma falta de compromisso para com a dimensão do belo e do sublime de uma manifestação artística. "Ler dentro" não é um mero devaneio ou deleite intelectual reservado para poucos, não mesmo. "Ler dentro" é ouvir o outro, é desenvolver a faculdade de ouvir, de receber informações, para aprendermos finalmente a depurar o que nos é dado. Se o mundo está dado, entendendo o mesmo como uma infinidade de representações de qualidades também infinitas, cabe a nós desenvolver o hábito de depurar aquilo que nos é dado. Somos responsáveis pelo que lemos, ouvimos, fazemos e todos os demais verbos, e apenas a preguiça pode nos levar à prisão da incompetência, do senso comum, da cultura de massa e da cultura dita erudita. Como diria Kant, somos responsáveis pela nossa mediocridade e é muito mais fácil delegar a alguém a tarefa de nos entregar tudo pronto. Portanto, o exercício de "descascar cebolas" é, também, um compromisso moral para com o desenvolvimento de nossas faculdades, na medida em que supõe um leitor em processo de esclarecimento e de atualização de todas as suas potencialidades como compromisso para com o outro e para si mesmo.
Sapere aude! (Latim: ouse saber!)
Thiago Fonseca